SIMPÓSIO SOBRE SUPERVISÃO  NA SPPA

29 e 30 de março de 1996.
Sérgio Paulo Annes
Membro Efetivo e Didata da SPPA
Publicado na Revista de Psicanálise da SPPA- Vol.III, n.2. pg. 299. Agosto 1996. Título: O Ponto de Vista de Um Supervisor.

Convidado pelo Secretário Científico da nossa Sociedade para tomar parte neste Simpósio, aceitei me propondo trazer minha experiência como supervisor.
Venho supervisionando candidatos, individual e coletivamente há muitos anos.
Não creio que vá dizer nada de novo, mas procurarei sublinhar o que julgo o mais importante.
A meu ver, as maiores dificuldades que um candidato enfrenta, de início, são:

  1. Aprender a interpretar na transferência. E isto não se resolve com a mudança de atitude, já que antes interpretava extra transferencialmente, passando a considerar que tudo o que o paciente diz, se refere a sua pessoa, o terapeuta. Este exagero leva, algumas vezes a negação da realidade externa. A atitude compreensiva e tolerante do supervisor contribuirá para que o neófito vá utilizando este novo instrumento sem se sentir cobrado ou acossado pelo supervisor. Seu aproveitamento na Cadeira de Técnica o auxiliará muito.
  2. A segunda dificuldade é de ordem preponderantemente emocional e diz respeito à neutralidade. O candidato em supervisão, para vencer esta dificuldade conta com a imprescindível ajuda de sua própria análise, onde estes problemas contra transferenciais devem ser amplamente examinados.
  3. A tentativa da resolução do problema da neutralidade compete à análise individual de cada um. Muitas vezes o candidato oculta o problema de seu a analista. É bom que se diga que, infelizmente, pode ocorrer com muitos analistas. O analista deve alertar o candidato para este obstáculo.
  4. Penso que outra grande dificuldade, também de ordem emocional, se refere  a manutenção do sigilo. Alguns candidatos e até mesmo analistas experientes têm dificuldade em “conter, sem transbordar”,  quem são seus pacientes e até mesmo o que eles lhes confiam. O sigilo é o mínimo de respeito que o terapeuta, seja ele aprendiz ou mesmo supervisor, deve ao paciente. Se o paciente quiser difundir seus problemas para amigos ou mesmo em rodas sociais, o problema é seu em se expor. O terapeuta é que não tem este direito. No caso do iniciante, que tem suas ansiedades exacerbadas diante “do novo” o impulso à inconfidência pode aumentar. O supervisor sem se portar como um juiz ou advogado de acusação, deve manter o candidato alerta diante desses problemas: sigilo e envolvimento com o paciente, mostrando-lhe a oportunidade que tem em trata-los em sua análise. Não vamos negar que é difícil, muito difícil mesmo, o manejo de situações que envolvem a neutralidade e o sigilo. O conter, não se resume no ouvir com tranqüilidade e sem julgar, sem “transbordar” o que nos foi confiado, seja lá para quem for. Aqui se incluem cônjuge do terapeuta, amigo íntimo, colega ou até em rodas sociais. As únicas exceções são: seu analista e seu supervisor.

Supervisão não se faz em corredores, bares ou encontros sociais ou festinhas. Se não formos capazes de guardar sigilo, sejamos, ao menos, como o político mineiro que se negou a ouvir um segredo por se julgar incapaz de guarda-lo. Na minha opinião, nas supervisões coletivas, bem como nas apresentações de casos clínicos e trabalhos, os casos clínicos devem vir “camuflados” o mais possível, sem que haja, alteração em seu cerne. E se alguém identificar, ou julgar haver identificado, guardar para si a possível identificação. No máximo, em particular, avisar o autor do caso apresentado para que este tome as devidas providências. Nas Supervisões Coletivas é notada uma maior ansiedade dos participantes que se traduz por um “ter que falar”, mesmo que não seja oportuno, e, muitas vezes, para repetir o que já foi dito há minutos atrás, querendo mostrar que entendeu melhor o caso que está sendo apresentado. Alguma vezes temos que relembrar ao candidato em supervisão que o tema trazido deve ser levado ao seu terapeuta.
O candidato, após receber e “conter” terá que entender e devolver, em uma forma inteligível e simples, o lhe foi trazido em forma enigmática. Isto ele vai aprendendo gradativamente com a ajuda dos seminários, leituras, supervisões e sobretudo com sua própria análise. É importante que o Supervisor não seja intrusivo na análise do candidato com interpretações que nesse caso seriam “selvagens”. Para ser interpretado ele tem o seu analista.
Sou de opinião que o supervisor, bem como o próprio analista, não deva ser diretivo. A idéia de criar “clones” ou mesmo títeres nossos, é a meu ver, mais adequado para o terreno religioso ou político, por exemplo. No tratamento analítico devemos nos ater a mostrar ao paciente seus aspectos em conflito, ajudando a libera-lo para que seja livre, dono de si próprio, escolhendo com responsabilidade seu próprio caminho.
Havia no interior do Estado um liderado por um “Coronel” em sua cidadezinha que alegava que não comia feijão “porque feijão fazia mal para o Coronel”. É um aspecto hilariante e ao mesmo tempo triste de relacionamento entre líderes e liderados.
Outro aspecto a ser considerado é a pressa em “se ver livre” quando é atingido o mínimo de cem horas exigido pelo regulamento do Instituto. Isto é notado em uns poucos que vêem a formação como o cumprimento de um “carnê”.
Deve ser considerada, também, a tendência de alguns candidatos, ao se iniciarem no exercício da análise, a fazerem o que o Roberto Pinto Ribeiro chamava “passar uma rasteira nos seus casos de psicoterapia, derrubando-os todos no divã”. Sendo agora um analista em formação, sente-se diminuído em continuar simplesmente um psicoterapeuta, o que para ele é uma atividade menor. Isto revela uma idealização da análise. A idealização, neste caso da análise, pode nos levar a repetir atitudes infantis como muitos adultos têm frente a sua religião, seu partido político, seu clube de futebol, etc. A desidealização da análise é um processo que leva tempo, nas análises individuais e em algumas jamais ocorre.
Os aspectos formais: entrevistas a serem trazidas para a avaliação do possível caso de Supervisão, traze-las escritas e dialogadas, o estabelecimento do contrato, são temas vistos nas aulas de Técnica e são assuntos que poderíamos chamar menores, diante da importância dos anteriormente destacados.

Após a reunião dos pequenos grupos teremos a oportunidade de esclarecer, se nos for possível, as dúvidas que surgirem.